Defensividade tátil

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O Sistema Tátil, ou a sensação do toque, exerce uma parte muito importante em determinar o comportamento físico, mental e emocional dos seres humanos. Todos nós, desde a infância, precisamos continuamente de estímulos táteis para nos manter organizados e com bom funcionamento do nosso organismo.

Nós recebemos os estímulos táteis através das nossas células receptoras – chamados de receptores – que ficam localizados na nossa pele, da cabeça aos pés. Sensações de toque, sejam eles de toque leve, toque profundo, alongamento da pele, vibração, movimento, temperatura e dor, ativam os receptores do sistema tátil. Essas sensações são externas e vêm de estímulos de fora do nosso corpo.

Nosso corpo é constantemente ativado quando tocamos algo ou, quando somos passivamente tocados por pessoas ou objetos, por exemplo, pela roupa, pelos móveis, etc. Mesmo quando estamos sem roupa, nossos pés ainda podem tocar o chão e o ar toca a nossa pele, produzindo a sensação de temperatura.

Este grande sistema sensorial nos conecta com o mundo e nos vincula uns aos outros, começando na primeira mamada no seio materno, em um contato que é pele com pele. Este sistema e as experiências táteis nos oferecem informações sobre a nossa consciência corporal, planejamento motor, discriminação visual, linguagem, aprendizagem acadêmica, segurança emocional e interação social.

Dois componentes presentes no sistema tátil são fundamentais. O primeiro é o de proteção (ou defensividade). O objetivo deste componente é nos alertar e proteger de algum estímulo com potencial de nos machucar. Os receptores táteis para este sistema de proteção estão localizados especialmente na pele na região da cabeça, do rosto e nos genitais. O toque leve é o que estimula a resposta destes receptores.

Algumas vezes, sentimos o toque leve como alarmante, por exemplo: quando um mosquito pousa na nossa pele. Rapidamente nós o sentimos e o sistema nervoso central (SNC), recebe esta informação e “devolve” uma resposta comportamental que é a de colocar a mão e espantar o bicho para não sermos picados. É uma resposta de auto-preservação do SNC. Outras vezes, o toque leve pode nos causar uma sensação bem agradável, como o carinho de uma pessoa querida. Então, o SNC “entende”este estímulo como um input positivo.

Normalmente, a modulação das sensações de toques diferentes melhora ao longo do nosso desenvolvimento através das nossas experiências e interações com objetos e com outras pessoas. Nós aprendemos a inibir sensações que não importam naquele momento e tolerar outros estímulos que podem ser irritantes mas, não são considerados “perigosos” ao nosso corpo. Claro que quando uma pessoa estranha chega perto de nós, nosso nível de alerta aumenta, nós às vezes até encolhemos o corpo, quando uma poeira entra nos olhos, nós piscamos. Mas usualmente, nós ignoramos toques muito superficiais porque eles não nos tiram a atenção como a dor por exemplo, ou, sensações térmicas extremas.

O segundo componente do sistema tátil, nos ensina a discriminar que tipo de sensação nós estamos sentindo.  Quando sentimos a sensação do corpo quente da nossa mãe, da barba do papai, gravetos nos nossos pés, a forma redonda de uma laranja, estamos construindo consciência, intuição e conhecimento sobre o mundo que nos cerca. Aonde sentimos este toque antes? O que significa este toque? Esta sensação? E o que devo fazer a respeito disso? Com a capacidade de reconhecer e interpretar o significado dos toques, nós podemos, pouco a pouco, desenvolver a discriminação tátil.

Os receptores responsáveis pela discriminação tátil estão localizados na pele, em sua maioria, na palma das mãos e dedos, sola do pé, boca e língua. O toque mais profundo (por pressão), é o tipo do toque que estes receptores reagem.

A criança que apresenta uma hipersensibilidade tátil tem como principal problema, a ineficiência do processamento no SNC em perceber as sensações no corpo através da sua pele. Essa disfunção pode influenciar a forma como a criança organiza e usa as sensações do tato.

Esta criança, com hipersensibilidade ou, defensividade tátil, tende a apresentar uma resposta exacerbada ao toque e sempre com uma interpretação negativa, emocionalmente, às sensações de toque leve. Esta criança pode responder de forma negativa não apenas quando é tocada, mas ao antecipar o toque. Nestas situações, seu comportamento é de medo, reação de “proteção, luta e fuga” exacerbadas ou de paralisar suas reações.

Essas crianças podem apresentar comportamentos típicos como dificuldade e reações exageradas nas trocas de roupa, banho, alimentação. Podem não gostar muito de atividades como pintura usando tintas, massinhas, bichos de estimação ou o contato com pessoas. Estas crianças podem ser intolerantes aos toques de pessoas não familiares, evitando o contato. Elas saem andando pelo ambiente e evitam chegar perto, por muito tempo, de outras pessoas.

Todas as crianças precisam de informações táteis para aprender sobre o mundo. Então, como as crianças com hipersensibilidade recebem essas informações? Simples…pelo toque! Os pais sempre acham estranho o diagnóstico de defensividade tátil e relatam que seus filhos gostam de ser abraçados, geralmente carregam objetos nas mãos ao caminhar. Como dizer que eles têm problemas de defensividade?

A resposta é perceber que tipo de toque (ou estímulo) a criança evita, e qual tipo de sensação ela busca. Em um quadro típico de defensividade, observamos que as crianças evitam os toques passivos, inesperados, leves (ou superficiais) como um carinho ou um beijo por exemplo. Por outro lado, enquanto a criança evita este tipo de sensação, ela aceita e até busca de forma insistente, o toque firme e profundo, como o abraço apertado de uma pessoa conhecida.

As crianças que apresentam defensividade tátil precisam da informação do tato mais do que qualquer outra criança que tenha este sistema bem regulado, e isso vai acontecer desde a hora que a criança acorda de manhã e ao longo de todo o seu dia. Para conseguir a estimulação sensorial que o seu cérebro precisa, a criança defensiva pode apresentar um comportamento de ativar, repetidamente, o sistema tátil através do toque mais profundo (com as mãos e/ou com a boca) em superfícies e texturas que provoquem uma sensação de prazer e conforto. Por exemplo, ela pode carregar ou morder um cobertor macio, gostar de morder algum objeto, colocar brinquedos na boca que tenham uma textura específica ou carregar brinquedos (de mesma textura) em suas mãos. Esses objetos escolhidos pela criança, a ajudam se “defender” sensorialmente (e emocionalmente) de sensações inesperadas que estão no ambiente e, que neste momento, ela sente como agressivas ao seu corpo.

Com as informações deste texto, junto com as orientações do terapeuta ocupacional, você poderá conhecer melhor as crianças que apresentam este perfil sensorial e auxiliá-la a explorar o mundo com mais qualidade e menos sofrimento. A criança que é acompanhada pelo terapeuta ocupacional, na especialista em integração sensorial, vai conseguir vivenciar atividades que favoreçam a modulação do sistema tátil trabalhando com os outros sistemas sensoriais de forma integrada, com conforto e prazer. Pouco a pouco, nosso objetivo é que a criança possa aceitar novidades e aumentar seu repertório de brincadeiras e exploração do corpo e do mundo.

Se você quiser saber mais sobre este assunto ou tirar dúvidas, entre em contato ou acesse os sites para mais informações:

www.otawatertown.com

www.spdfoundation.net

www.zoemailloux.com

REFERÊNCIA: Este texto foi traduzido e adaptado do capítulo do livro: KRANOWITZ, C.S. The Out-of-Sync Child: recognizing and coping with sensory processing disorder. Part I, Cap. 3: How to tell if your child has a problem with the tactile sense. A Skylight Press Book, 2005.

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