Um Olhar sobre os Jogos de Regras…

A proposta aqui é pensarmos um pouco sobre os jogos de regras. Quais os benefícios de se jogar com crianças na escola, em casa ou na terapia? O que elas ganham com isso? Saber esperar a vez? A ganhar e perder? Muito mais que isso….aprendem a pensar!

Pensamos no jogos de regras como uma possibilidade de desenvolver competências para as questões da escola e da vida. O prof. Dr. Lino de Macedo no Instituto de Psicologia da USP, já estudou e orientou diversas pesquisas sobre este tema, sob as mais diversas perspectivas (sempre à luz da teoria de Piaget). Quem se interessar, no final deste texto, destaco algumas referências sobre o tema. Vale à pena estudar!

Por que pensamos o jogo de regras como grande aliado ao desenvolvimento de competências? Porque no jogo é possível, e necessário, aprender noções como: letras, números, formas, imagens, vocabulário, cores, quantidade; é possível aprender a tomar atitudes frente ao jogo e com quem se joga e isso exige: respeito, disciplina, atenção, vontade e cooperação; e também, adquirir e usar habilidades cognitivas:  raciocinar, antecipar, inferir, relacionar, argumentar, ordenar, excluir, mapear, identificar…

É gostoso jogar um jogo de forma livre, brincando e pelo simples prazer funcional desta atividade. Mas é fundamental que esta atividade possa ser dirigida e compartilhada com um adulto também.

É jogando que o adulto (pai, mãe, professor, terapeuta, etc.), aprende a observar os modos de pensar de uma criança, principalmente na forma como ela enfrenta e resolve problemas. Problemas dos mais variados…desentendimentos com outros jogadores, atitude frente às regras e aos desafios mentais durante uma partida. Podemos observar os recursos que as crianças utilizam para compreender regras, jogadas, os argumentos que consegue elaborar, justificativas, antecipações, criação (ou não) de boas estratégias.

Gostaria de chamar atenção, justamente a este desafio mental que chamamos de procedimentos. Quando jogamos, nosso objetivo é vencer, certo? Para isso precisamos jogar certo (de acordo com as regras), mas, sobretudo jogar bem. Para jogar bem, as crianças precisam compreender o que estão fazendo e pensar nas suas decisões antes de tomá-las. Ou ainda, refletir e modificar uma decisão errada. É esperado das crianças durante uma partida de jogos de regras, que elas acertem e que também possam cometer certos erros. É extremamente importante que o adulto que estiver presente neste momento, permita que isso aconteça.

Quando um jogador erra e perde uma partida, é um bom momento para refletir sobre atitudes e retirar desta experiência algo que foi bom e o que não foi. Diante disso, esses pequenos jogadores poderão aperfeiçoar suas jogadas, pensar e discutir sobre erros, acertos, estratégias, etc., conseguirão antever soluções, selecionar boas ações (jogadas), identificar escolhas e substituir erros .

O “pulo do gato” está não apenas em conseguir vencer uma partida, mas compreender o que se fez para que isso acontecesse. E você, adulto pode contribuir para que isso aconteça.

Jogar com crianças que apresentam atrasos no desenvolvimento intelectual tem sido muito eficaz nas aquisições de certas noções e habilidades. Esse exercício de jogar jogos de regras, exercitando a compreensão da ações as práticas, tentando explicar as razões de uma jogada, refletindo e construindo argumentos, fortalece o trabalho intelectual na vida e na escola!

 Um pouquinho de desenvolvimento da consciência de regras…

As crianças a partir dos 6 anos de idade, estão entrando num estádio que Piaget chamou de “pré-operatório”. O interesse pelo jogos de regras começa mais ou menos neste período (para algumas crianças antes, para outras depois). Os jogos de regras possuem características que são herdadas das fases do anteriores deste período do desenvolvimento, como a repetição, o prazer funcional (sensório-motor) e as representações (simbólico). Só que nesta fase, a criança começa experimentar duas novas características: a coletividade e a competição. Aqui, a criança já começa a exercer um sentido operatório daquilo que aprendeu nas etapas anteriores, experimenta regras e exercita a transição entre as ações (aquilo que ela faz) com as operações (aquilo que ela pensa).

Piaget escreveu um livro, chamado “O Juízo Moral na Criança”(1931/1994) em que ele descreve os seus experimentos e reflexões sobre o desenvolvimento da consciência e da prática das regras na criança. A seguir, de forma bem resumida, descrevo o desenvolvimento da consciência das regras, que segue o seguinte curso: primeiro, para as crianças até 5 anos de idade, as regras são mais motoras e elas estabelecem funções de acordo com os seus desejos e não pensando num coletivo. A partir dos 3 anos de idade, elas começam a receber as regras do ambiente, imitar uma regra, mas mesmo assim, não se importam com o coletivo. Ela pode jogar tanto sozinha como com parceiros, mas ainda assim, joga por si. Inclusive, num “jogo de regras”com crianças pequenas, todas podem ganhar, se assim elas quiserem, e as regras do jogo não são definidas de forma muito clara…

Num grupo de crianças pequenas é muito comum elas inventarem jogos usando jogos convencionais como modelo, por exemplo: “pular” amarelinha “andando”, ou “de gatinho”…quem chegar primeiro vence… ou, usar as regras de um jogo convencional, por exemplo: chutar a bola na rede faz gol. Ainda que todas as crianças sigam esta mesma regra, podemos escutar: “eu ganhei” e a criança do outro time “eu também!”.

Entre 7 e 8 anos de idade, a criança, como jogador, procura vencer o seu adversário criando-se a necessidade de definir e estabelecer as regras de forma mais clara e, que funcione para todos os jogadores. Mas este grupo de crianças apresenta variações das regras de um jogo (mesmo que elas sejam padronizadas, como o futebol por exemplo). Se o grupo, em sua maioria, assim decidir. Por exemplo, observar um grupo de meninos desta idade jogando futebol, pode ser comum escutar certas combinações entre eles do tipo: “Não vale escanteio” ou “o jogador X pode pegar com a mão”,etc…

Só com 11 ou 12 anos de idade, as regras de um jogo passam a ser regulamentadas. As regras de um mesmo jogo são, inclusive, conhecidas por toda a sociedade. Por exemplo, se você juntar um grupo de meninos desta idade para jogar futebol e, durante a partida inventar uma nova regra, fatalmente irá escutar do grupo “Ah….então não é futebol!”

Lembrando sempre que, o desenvolvimento infantil não é linear e dividido didaticamente como estudamos, certo? Há intervalos e faixa etária para aquisição de habilidades, mas cada indivíduo comanda seu ritmo de desenvolvimento!

Vamos ter oportunidade de conhecer alguns jogos de regras bem interessantes, sobretudo os de estratégias. Mas por enquanto, indico alguns jogos de regras que utilizo no meu trabalho com crianças com dificuldades de aprendizagem:

Ta-te-ti

Recomendo este jogo porque além de apresentar um bom desafio mental, principalmente de antecipação, direções espaciais, identificação, relação e estratégia, ele é muito fácil de se fazer!

Este jogo parte do princípio do Jogo da Velha, portanto, você pode fazer com a sua criança desenhando a tabela no papel, na areia, com giz no chão, etc. As peças podem ser feijões, pedras, botões ou simplesmente um desenho de bolinha ou cruz. Cada jogador tem 3 peças. Coloca-se cada um na sua vez com objetivo de alinhar as suas 3 peças nas direções: vertical, horizontal ou diagonal.  Se nenhum dos jogadores fechar um alinhamento quando terminar as peças, começam então, a deslocar as peças pelas casas marcadas (na intersecção das linhas). Quem formar o alinhamento primeiro é o vencedor!

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Quarto

Este jogo traz muitos benefícios na aprendizagem e desenvolvimento da criança na escola. Usei este jogo como um dos instrumentos na minha pesquisa de Doutorado. Vocês encontram as regras na internet e, inclusive, pode-se variá-las deixando o jogo mais simples e aumentando o seu grau de complexidade.

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http://www.gigamic.com

Outros jogos  comerciais que vocês encontram nas lojas e que são interessantes para esta proposta: Floresta Encantada, Dama, Cara a Cara, Senha, Conect 4.

Se você tem interesse por este assunto e quer saber mais, escreva, pergunte, comente, no nosso espaço Comentários ou escreva para: contato@integrasense.com.br

Referências para sua pesquisa. Caso tenha interesse, posso enviar o arquivo em Pdf dessas publicações.

Macedo, L. Os jogos e sua importância na escola. Cadernos de Pesquisa, n. 93, 1995

Macedo, Petty e Passos. Aprender com jogos e situações-problema. Artmed, 2008.

Macedo, L (org). Jogos, Psicologia e Educação: teorias e pesquisas. Casa do Psicólogo, 2009.

Macedo, L. Aprendizagem, jogo e ensino como elo entre culto e cultura. Revista Nova Escola, v. 39, 2011

Andreotti, AL. Jogos de regras e processos de aprendizagem de crianças com paralisia cerebral. Tese de Doutorado, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, 2013.

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